Um texto mais aprofundado

Este texto que será postado abaixo, é um trabalho acadêmico já entregue. Não copie.

PS: Será falado sobre a Filosofia da História para Hegel e Nietzsche. (NÃO CAI NO VESTIBULAR)

 

1 - Hegel

 

      Hegel é um filósofo alemão do início do século XIX, conhecido como o consolidador da Filosofia da História idealizada por Kant (precursor de Hegel na filosofia, também alemão). Hegel é uma das maiores influências de importantes filósofos como Marx. Possui como importantes temas: a razão, a liberdade, a ideia, o espírito e natureza.

       A História é de extrema importância para a filosofia de Hegel, pois para ele é a “auto-realização da verdade da sociedade”. E é em sua confiança extrema na razão que Hegel baseia toda sua filosofia da história. Seu otimismo de que a realização da  razão se daria pelo homem pensante, capaz de “reconhecer suas potencialidades e as de seu mundo” (H. Marcuse, Razão e Revolução, p.17).

      Um grande marco para a carreira de Hegel foi a Revolução Francesa, uma grande inspiração para seus pensamentos. Esta marcou o período em que o homem se tornou capaz de organizar a realidade através de seus pensamentos. Enquanto para os franceses, o desenvolvimento econômico era o fundamento da razão, para os alemães – como Hegel e Kant -, onde tal desenvolvimento ficara para trás, o estabelecimento de uma sociedade racional foi transferido para o plano das ideias, para o plano filosófico “[...] ao idealismo alemão cabia apenas se ocupar com a ideia de liberdade.” (idem, p.16). E a própria fragmentação política alemã foi responsável pela sua potência intelectual e filosófica, de acordo com Herbert Marcuse.

 

 

 1.1 - A busca pela verdade

 

      Um dos temas abordados por Hegel é a busca pela verdade, isto já havia sido falado por Platão. Entretanto, o pensamento hegeliano é oposto ao do filósofo grego.

      Para Platão, a verdade é algo permanente e fora do tempo, ou seja, que já existe, enquanto em Hegel, a verdade não é apenas uma ideia supra-sensível, mas um progresso que se constitui na própria história. Para Hegel, a história da filosofia é a própria história. A verdade é, pois, um processo, assim como a História, que um dia vai alcançar sua finalidade.

 

 

 1.2 - A Ideia e o Espírito

 

     Devemos começar a pensar sobre a filosofia hegeliana a partir da ideia de que “a História é o desenvolvimento do Espírito no tempo, assim como a Natureza é o desenvolvimento da Ideia no Espaço”. Logo percebemos que o pensamento de Hegel é feito a partir das relações entre Natureza, Ideia e Espírito.

      A Natureza, após ter passado pelos reinos mineral e vegetal, chegou ao do homem. Sendo o homem um ser pensante, tem consciência de seus atos e pensamentos, sendo criada assim a Ideia, a qual vem a ser desenvolvida com o passar do tempo.

      Uma figura muito importante neste pensamento de Hegel é a existência de Deus. Opondo-se à filosofia de Kant, para Hegel, não é a natureza que é divina, mas sim a história. Este é um motivo para sua frase “A história é a autobiografia de Deus”.

      Outro aspecto importante, que Hegel explica em seu livro Fenomenologia, é o “Tempo”. Segundo ele, a história não passa apenas pelo tempo físico, mas também pelo tempo da consciência, nos remetendo então a figura do Espírito.

      O Espírito só é compreendido pelo pensamento e segundo Hegel, aparece em todas as ações que são exercidas pelo ser humano. Como vemos no livro A razão na História, “O homem é parte Natureza e parte Espírito, mas sua essência é o Espírito. Quanto mais o homem se desenvolve espiritualmente, mais ele se torna consciente de si. (p.25). A partir deste pensamento citado acima, Hegel mostra que o Espírito e a Liberdade estão extremamente ligados.

 

 

 1.3 - Liberdade

 

      Kant, uma das maiores influências de Hegel, imaginava que uma sociedade ideal seria uma em que todos governassem juntos, sem um soberano. Já Hegel, imaginava que a sociedade ideal seria uma em que haveria a liberdade através da razão.

      Com a Revolução Francesa chega o momento em que o pensamento deve governar a realidade. Porém, como o pensamento varia de indivíduo para indivíduo, ele só poderá governar a realidade se o homem possuir “conceitos e princípios de pensamento que designem normas e condições universalmente válidas” (Marcuse, p.18). Hegel acredita que a totalidade de tais conceitos e princípios é a razão. E a liberdade é a mais importante categoria da razão. E somente aquele que é senhor de seu próprio desenvolvimento (o homem), que pode racionalizar suas potencialidades, pode alcançar o governo da realidade pela razão. A razão desemboca na liberdade e esta pressupõe aquela. A realização da liberdade é a própria realização da razão, que só o homem pode conseguir por ter entendimento do seu processo de desenvolvimento e de “conceitos”.

      O conceito de liberdade é o cerne da filosofia da história de Hegel. Para ele, “[...] o pensamento filosófico nada pressupõe além da razão [...] o estado é a realização da razão.” (Marcuse, p.16). O homem não está submetido aos fatos, ao contrário, está capacitado a submetê-los ao critério maior, o da razão. Ele passou a submeter a realidade dada aos critérios da razão. O que é real, verdadeiro, é idêntico ao seu “conceito”. “Todas as formas são atingidas pelo movimento dissolvente da razão, que as revoga e altera até que correspondam aos seus próprios conceitos.” (idem, p.33). O Estado que não garanta a liberdade, por exemplo, não se adapta à teoria que define “Estado”.

      Hegel está convicto no processo que levará à liberdade (“a história é uma luta constante pela liberdade”). Na reorganização da ordem social, abolindo definitivamente o absolutismo e o feudalismo, e garantindo a livre competição, a igualdade diante da lei, etc. A liberdade vai sendo ampliada com o passar do tempo, de modo progressivo. Um trecho dele exemplifica isso: “Nas civilizações orientais passadas, um era livre; na Antiguidade Clássica, Grécia e Roma, alguns eram livres; e nas modernas civilizações germânicas e anglo-saxônicas, todos são livres.”

 

 

1.4 - Liberdade de pensamento e liberdade de ação

 

      Liberdade de pensamento está associada à liberdade de ação. Na época em que Hegel elaborou sua filosofia da história, a cultura estava mais ocupada com a ideia das coisas, muito mais do que com as próprias coisas e a liberdade de pensamento era posta acima da liberdade de ação, assim como a moral acima da justiça prática. Hegel tenta reconciliar estas dualidades do pensamento ocidental. Esta mesma busca por reconciliação é a própria história para Hegel. Quando tais reconciliações fossem atingidas não haveria mais necessidade de história.

      Mas o resultado das ações da história não é planejado pelo homem. Hegel introduz o conceito de “astúcia da razão” que utiliza as paixões dos homens para que a história atinja seu fim. ”Os homens produzem, em geral, pelas suas ações [...] além daquilo que eles projetam e obtêm [...]; eles realizam os seus interesses; mas algo que os excede se realiza ao mesmo tempo, algo que interiormente também está presente, mas de que eles não têm consciência, e que não visavam.” (Hegel, Extratos, p.102-103). A astúcia da razão permite às paixões agirem no lugar da ideia, que não se expõe ao combate e não perece. O indivíduo pode e deve ser sacrificado para que a ideia sobreviva. O particular, que é sempre inferior ao universal, é um ser finito e deve perecer e de sua própria desaparição resulta o universal.

 

 

1.5 - Dialética

 

      Conhecida também pelo pensamento de Karl Marx (materialismo dialético), a dialética foi idealizada por Hegel. A base da filosofia hegeliana está na dialética, onde o presente nega o passado formatado pela tradição. A dialética consiste na oposição entre dois elementos que estão sujeitos ao tempo. Através da negação, a dialética procura resolver as contradições no tempo. O presente é a antítese do passado, que submete o status quo em nome de uma síntese do futuro, de uma realidade futura a ser construída. A crítica muda o passado para abrir uma esperança do futuro. Um exemplo de dialética é uma revolução, na qual há o rompimento de um modelo para a entrada de outro.

 

 

1.6 - Filosofia da história

 

      A história de Hegel é a história das ideias e a história do desenvolvimento das ações humanas. Ele é, como já dito, o consolidador da filosofia da história na modernidade. Enquanto para Kant, esta é apenas uma parte de seu pensamento filosófico, para Hegel a história da filosofia é a própria história.

      A história do mundo na concepção hegeliana começou no Oriente com os impérios de China, Índia e Pérsia, passando pelo Mediterrâneo com a vitória dos gregos sobre os persas e culminando nos impérios germano-cristãos do Ocidente. Para Hegel, portanto, a Europa é a meta da história. “Os orientais foram a infância do mundo, os gregos e romanos a juventude e a idade viril, os povos cristãos a sua maturidade.” (Karl Löwith, O Sentido da História, cap. III, p.63). E é por acreditar que a história está próxima de atingir seu fim (telos) que ele seria capaz de pensar sobre tal sucessão de eventos. Este fim seria a consolidação da liberdade através do domínio da razão sobre as ações humanas. Quando a liberdade chegasse para todos os indivíduos, a história chegaria no seu fim (tanto no sentido de término quanto no de finalidade).

      Voltando à citação que mostra a progressividade da história da liberdade hegeliana, pode-se explicar a sua analogia com a “Ave de Minerva”, a qual voa apenas à noite. Então, a explicação para isso é que a história está chegando ao fim (objetivo e término), já que está atingindo o ponto em que todos serão livres.

      Ao contrário de Kant, Hegel acredita que a perfeição é alcançável e estaria próxima, pois é em sua convicção extrema na razão que ele baseia toda sua filosofia da história. É seu otimismo de que a realização da razão se daria pelo homem pensante, capaz de “reconhecer suas potencialidades e as de seu mundo” (Marcuse, p.17).

 

 

 

 

2- Nietzsche

 

      Friedrich Nietzsche elaborou sua filosofia da história em Segunda Consideração Intempestiva – Da utilidade e desvantagem da história para a vida. Da análise do título já se pode depreender bastante de tal filosofia. Nietzsche pretende que sua consideração acerca da história seja um objeto estranho à sua própria época, uma consideração extemporânea, “em favor de um tempo vindouro”. Daí ela ser “intempestiva”. Ele fala em sua “consideração intempestiva” de que os modelos existentes da história (de acordo com sua classificação) possuem vantagens e desvantagens para a vida.

 

 

2.1- A filosofia da história para Nietzsche

 

      Nietzsche acreditava que a função imprescindível da historia era servir à vida como instrumento de orientação. “[...] a história tomada como um precioso supérfluo e luxo do conhecimento deveriam ser [...] verdadeiramente odiosos para nós [...]”, segundo palavras de Goethe. “[...] o supérfluo é o inimigo do necessário.” (Nietzsche, Segunda Consideração Intempestiva, p.5). Uma vez que, ao extrair os pontos fortes e fracos dos três tipos de história perceptíveis (segundo ele) – a saber: história monumental, história antiquária e história critica – a humanidade poderia concluir que a vida rege todo e qualquer ‘domínio histórico’, a fim de filtrar o passado, desenvolver da maneira mais autônoma e original possível a vivência no presente e, fatalmente, influenciar o futuro.

      A problemática da história para Nietzsche é a absolutização da mesma, como ocorria no século XIX. Esta ensinou que era preciso lembrar ao máximo. Ao contrário, Nietzsche acha que é necessário equilibrar esquecimento e lembrança, pois o “excesso de lembrança” paralisa, anula o presente e impossibilita a criação. Ele quer destruir o a priori, segundo o qual a história é o principal meio de conhecer a realidade, e colocá-la num lugar onde ela possa ser julgada em suas vantagens e desvantagens (o luxo supérfluo da erudição). “[...] algo de que a época está com razão orgulhosa – sua formação histórica como prejuízo, rompimento e deficiência da época – porque até mesmo acredito que padecemos todos de uma ardente febre histórica e ao menos devíamos reconhecer que padecemos dela.” (idem, p.6).

 

 

 

 

 

2.2- Temporalidade

 

      “Então, o homem diz: ‘eu me lembro’ e inveja o animal que imediatamente esquece [...]” (idem, p.8). A partir desta frase, Nietzsche considera o animal um ser “a-histórico”. O animal não pode aprender a esquecer. Não pode ser nada mais do que ele é a cada instante. Isto aflige o homem que, desde a infância é “arrancado ao esquecimento”. O homem é “um imperfectum que nunca pode ser acabado”. Ele não pode ser como o animal e viver no esquecimento. Porém, este é absolutamente necessário, pois um acúmulo de conhecimento seria nocivo (a perda de espaço para o presente). O homem deve perceber, então, quando é necessário sentir de forma a-histórica para que não se perca no excesso de história. E é sua “força plástica”, ou seja, seu poder de adaptar-se, moldar-se, recuperar-se, restabelecer “o perdido”, recuperar as “formas partidas do passado” que o fará ser capaz de esquecer. “O histórico e o a-histórico são na mesma medida necessários para a saúde de um indivíduo, um povo e uma cultura.” (idem, p.11).

 

 

2.3- As três “espécies” de história

 

      No texto A Segunda Consideração Intempestiva, Nietzsche idealiza três espécies de história, as quais recebem o nome de: monumental, antiquária e crítica. Deve-se ressaltar que não há hierarquia entre as mesmas e não há uma ideal. Nietzsche salienta que todas são úteis a vida, todavia possuem desvantagens.

      A História monumental fala de eventos grandiosos, “diz respeito antes de tudo ao homem ativo e poderoso, ao homem que luta em uma grande batalha e que precisa de modelos, mestres, consoladores e que não permite que ele se encontre entre seus contemporâneos e no seu presente.” (idem, p.18). Na história monumental, somente o grande sobrevive. Ela se mostra útil no presente por demonstrar que o que já existiu, tendo sido possível uma vez, poderá ser possível novamente. “[...] ele (o homem presente) segue com mais coragem o seu caminho, pois agora suprimiu-se do seu horizonte a dúvida que o acometia em horas de fraqueza, a de que ele estivesse talvez querendo o impossível.” (idem, p.20). Entretanto, destacando somente feitos extraordinários, o passado monumental pode se equiparar a uma ficção mítica, distorcendo-o e generalizando-o em relação ao processo histórico. “Se a consideração monumental do passado governa sobre outros tipos de consideração [...], então o passado mesmo é prejudicado: grandes seguimentos do passado são esquecidos, desprezados e fluem como uma torrente cinzenta e ininterrupta, de modo que apenas fatos singulares adornados se alçam sobre o fluxo como ilhas [...]” (idem p.22).

      A história antiquária dá valor antes ao pequeno. Ao contrário da monumental, preocupa-se, por exemplo, em falar sobre acontecimentos locais, hábitos cotidianos, populações menos favorecidas, etc.. Isto gera um sentimento de pertencimento, identificação e enraizamento. Contudo, o campo de visão do homem, na espécie antiquária, é restrito, ou seja, ele só consegue ver próximo, de forma isolada, sem poder mensurá-lo. Desta forma, quando tudo se torna igualmente importante (e “cada indivíduo torna-se importante demais”), perde-se o sentido de proporção do geral. A história antiquária “compreende a vida só para conservá-la, não gerá-la; por isto, ela sempre subestima o que devém porque não tem nenhum instinto para decifrá-lo – como o tem, por exemplo, a história monumental.” (idem, p.29).

      Como tanto a história monumental quando a antiquária partem do passado, faz-se necessário um terceiro modo: a história critica. Esta precisa interferir no passado, considerá-lo de forma crítica e, finalmente, condená-lo, para assim liberar o presente do seu fardo. Nietzsche fala que este processo é perigoso “porque somos o resultado de gerações anteriores, [...] somos o resultado de suas aberrações, paixões e erros, mesmo de seus crimes; não é possível se libertar totalmente desta cadeia.” (idem pp.30-31).

      Tendo em vista as utilidades, valores, vantagens e desvantagens das três espécies de história, Nietzsche defende que deve haver certa dosagem de cada uma, gerando um equilíbrio, que anularia as desvantagens umas das outras. “Estes são os serviços que a história pode prestar a vida; de acordo com suas metas, forças e necessidades, todo homem e todo povo precisa de um certo conhecimento do passado, ora sob a forma da história monumental, ora da antiquária, ora da crítica [...]” (idem, p.31). A finalidade da história não deve ser a mera erudição, “mas (dever ser) sempre [...] para os fins da vida, e, portanto, sob domínio e condução suprema desses fins.” (idem, p.32).

 

 

3 – Conclusão

 

      Nietzsche combate a ciência da história, de Hegel, pois pensa que não pode haver síntese e acabamento. A exigência da cientificidade é a responsável por haver uma interposição entre a história e a vida. “A cultura histórica só é efetivamente algo salutar e frutífero para o futuro [...] se ela é dominada e conduzida por uma força mais elevada e não quando ela mesma domina e conduz.” (idem, p.17).

      Ao contrário das concepções de Hegel, Nietzsche, portanto, não admitia a ideia de teologia na história, ou simplesmente que a distinção entre passado e presente pudesse agir dialeticamente, de modo a obter, através de um processo de negação e superação, uma “síntese” para guiar o futuro. A história – enquanto um instrumento ou uma ferramenta de auxílio à vida – deve estar destituída de objetivo ou direção particular. Com isso, toda a filosofia moderna da história, isto é, processual, progressista, teleológica é combatida por Nietzsche em sua filosofia contemporânea. Ele critica o costume alemão de “justificar a sua própria época como o resultado necessário” de um processo.

      Em A Segunda Consideração Intempestiva, Nietzsche chega a atacar diretamente a filosofia hegeliana (a que ele acusa de “nova crença”) em sua supervalorização do poder da história, de que todo evento possui uma necessidade racional e é a prevalência da Ideia. “O quê, não haveria mais nenhuma mitologia dominante?!? Vede somente a religião do poder histórico, atentai para os padres da mitologia das ideias e em seus joelhos esfolados!” (Segunda Consideração Intempestiva, p.73).

      Por fim, fica evidente a diferença entre a filosofia da história moderna e contemporânea. Hegel não pode confrontar Nietzsche, posto que quando este nasceu, a “história de Hegel” já havia chegado ao fim.